Tireoide E As Borboletas

Publicado em: 15/03/2021

A atriz Carla Diaz, participante do Big Brother Brasil 21, publicou recentemente em seu Instagram um documentário sobre sua luta contra um câncer na tireoide diagnosticado no ano passado. Neste vídeo, ela relata toda sua trajetória desde a descoberta do nódulo tireoidiano até a recuperação após a cirurgia, comparando esse processo com a metamorfose da borboleta.

Mas porque será que Carla Diaz utilizou essa comparação? Além de gostar desse animal tão belo, a atriz explica que o formato da glândula tireoide se assemelha a uma borboleta de asas abertas, tornando esse fato ainda mais significativo.

A glândula tireoide é uma importante glândula endócrina, responsável pela produção de tiroxina (T4), triiodotironina (T3) e por calcitonina. Está localizada na região anterior do pescoço ao nível das vértebras C5 e T1 e pesa cerca de 15 gramas. É formada por dois lobos laterais unidos na linha médio por um istmo (formato de escudo, borboleta ou “H”). Em cerca de 40 a 50% dos indivíduos é possível observar um lobo piramidal que se dirige superiormente a partir do istmo da tiroide, unido ao osso hioide por um espessamento fibroso.

A palavra tireoide vem do grego. É uma aglutinação dos termos thyreós (escudo) e oidés (forma de). O nome veio do fato da glândula ter uma forma semelhante também à de um escudo. Leonardo Da Vinci (1452-1519), pintor, engenheiro e grande anatomista do século XV, foi o primeiro a desenhar a tireoide.  Porém, a descoberta desta estrutura como glândula ocorreu em 1656, por Thomas Warton. Na época, ele acreditava que a função da tireoide era apenas estética, servindo simplesmente para modelar o pescoço. Somente no século XIX, foi possível confirmar sua importância.

Kocher foi o primeiro cirurgião e o primeiro suíço a receber um Prêmio Nobel de Medicina, em 1909, sendo o reconhecimento mais importante de seu trabalho: um estudo sobre a fisiologia e novas técnicas de tireoidectomia, ou seja, cirurgia para a retirada da glândula tireóide. Devido às altas taxas de mortalidade por hemorragia e morbidade por infecções, lesão do nervo recorrente – acarretando a paralisia das pregas vocais –  e danos das paratireoides, esse procedimento somente era realizado para a prevenção da morte. Em 1846, com a introdução da anestesia, da antissepsia em 1870, e da técnica desenvolvida por Kocher em 1880, é que as intercorrências da tireoidectomia começaram a diminuir. 

A pesquisa de Kocher foi motivada pela alta incidência de bócio em seu país. Em 1850, aproximadamente 85% das crianças suíças sofriam com essa patologia. No entanto as conseqüências e as condições para a realização da tireoidectomia não eram favoráveis, como já citado anteriormente. Assim Kocher passou a desenvolver uma técnica operatória que além de ser utilizada como tratamento para o bócio diminuísse as complicações da tireoidectomia. Essa técnica inclui o uso da incisão transversal em colar, a divulsão do plano muscular, a mobilização medial da tireóide após ligadura da veia tireóidea média, a adequada exposição de ambas as artérias tireóideas e seus ramos, assim como a adoção de meticulosa hemostasia.

Kocher fez sua primeira tireoidectomia em 1872. Em 1874, quando já totalizava mais de 100 cirurgias, ele exerceu uma excisão total em uma menina de 11 anos, Maria Richsel. Através de carta, foi informado pelo médico da cidade da menina sobre a existência de uma mudança gradual de humor: de felicidade e vivacidade à preguiça e introspectividade, com uma perda geral de interesse. Isto fez com que Kocher reinvestigasse todos seus pacientes que foram submetidos à cirurgia de tireóide. A vasta maioria mostrava sinais de hipotireoidismo, o que ele chamou de “cachexia strumipriva”. Kocher percebeu que estes sinais e sintomas estavam ausentes na excisão sub-total. Juntando isto aos seus estudos da fisiologia da tireóide e as observações feitas por Virchow, segundo as quais a deficiência de iodo produzia sintomatologia similar à tireoidectomia total, ele concluiu que a glândula tireóide era um órgão essencial e que sua ausência criava um quadro clínico típico como obesidade, sensação constante de frio e retardo mental. Neste mesmo estudo, em que Kocher descobriu a ligação entre tireoidectomia e hipotireoidismo, ele também tomou conhecimento de outras patologias como mixedema e cretinismo. 

Até o momento, a abordagem cirúrgica da tireoide mais utilizada é o acesso convencional cervical anterior descrito por Kocher (incisão aberta). Por este método, é possível remover parte ou a totalidade da glândula com resultados extremamente seguros. Outras opções mais recentes de acesso cirúrgico para tireoidectomias são os robóticos (acessos retroauriculares) ou transorais (TOETVA), sendo este último a opção escolhida pela atriz Carla Diaz.

Fonte: Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), http://salton.med.br/nobel/ver/122/1909%3A-EMIL-KOCHER

Publicado por: Dra. Natália Andrade

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